Emmanuelle na Selvagem: “Nunca pensei que poderia viver de música”

24/05/17

Emmanuelle inventa música desde pequena. Sempre tocou algum instrumento ao longo da vida. “Maluquices”, como disse, que funcionavam como meditação e uma forma de escape. Tinha uma carreira bem sucedida na moda, mas aquele ambiente dava calafrios. Stress, obrigações, chefes, deadlines. Em 2014, recusou uma oportunidade dourada em Hong Kong para se dedicar aos rascunhos do Garage Band. Em seguida, um novo convite que a fez ganhar alcance e visibilidade com aquilo que sempre a divertiu, suas composições.

David e Stephen Dewaele, dos projetos Soulwax e 2Manydjs, escutaram as melodias de Emmanuelle após se conhecerem em uma entrevista para uma revista de moda que ela trabalhava. Seu editor passou por cima de sua timidez recomendando aos produtores as músicas que circulavam apenas em seus grupos íntimos de Whatsapp. Tanto os agradou que decidiram produzir e lançar pela label da dupla, a Deewee, seus primeiros singles: Free Hi-fi Internet (2015) e L’ Uomo d’Affari / Italove (2016). Foi curioso sair do Garage Band para um grande estúdio: “Achei que aquilo era uma piada, sabe?”.

No Spotify, são mais de 600 mil plays e nos canais de YouTube da Deewee passa dos 400 mil views. Em contraste, uma pesquisa no Google não revela reportagens ou entrevistas com Emmanuelle. Além disso, seus perfis pessoais reforçam a personalidade discreta: no Soundcloud, 51 seguidores; no Instagram poucas fotos de si entre imagens de Gal, Nara Leão, Prince, Frida Kahlo e Kraftwerk; no Facebook, o perfil é privado e só depois de autorizada a amizade você encontra uma rede pessoal que não passa de algumas centenas de amigos. Um panorama incomum no universo da promoção digital de um artista.

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Era preciso uma conversa para entender mais sobre a artista convidada a tocar na Selvagem de maio, no Rio de Janeiro. Uma carioca que foi para Miami com 10 anos, virou adulta na Itália (país onde viveu por mais tempo), e vive atualmente em Londres. Não por muito tempo: está há cinco anos sem apartamento fixo, sendo que nos últimos dois passou por 120 Airbnb.

COLUNA: Imagino que viver em tantos lugares no mundo influenciou a sua proposta e criação musical. E as raízes brasileiras?
EMMANUELLE: Com certeza. Muito pela variedade de músicas nos períodos que vivi em cada lugar. Sempre fui muito eclética. Quando pequena tinha aula de piano, tocava música clássica e essas coisas ficam com você. A Rita Lee foi muito marcante para mim, algo que veio da minha mãe que era viciada. Me identifico muito com as coisas que ela falava, me deixava curiosa. Achava ela inteligente, engraçada, feminina, um senso de humor que sempre tive. Outra reverência é Nei Matogrosso.

C: Houve um momento de decisão na sua vida: seguir uma carreira bem sucedida na moda ou se dedicar mais à música. Como foi essa virada?
E: Foi uns quatro anos atrás. Nunca pensei que poderia fazer isso para viver, nunca foi o plano. Trabalhava na moda e era bem sucedida, mas não me sentia completa. Estava movida pela obrigação e o corpo começou a rejeitar aquilo fisicamente. No início, trabalhava como diretora de arte em uma revista com independência e liberdade para fazer o que eu quisesse. Gostava. Mas depois a gente vai crescendo, e a vida te leva a lugares onde você perde essa liberdade e se transforma em outra coisa. Fui indo…

C: Foi indo até conhecer David e Stephen, do Soulwax / 2manydjs. Como foi o processo de sair do Garage Band e entrar em um mega estúdio de gravação da Deewee?
E: Conheço eles há anos, de quando os entrevistei para essa revista que trabalhava. Meu editor comentou com eles: “Aí, ela faz música de zueira”. Começou assim. É engraçado entrar num grande estúdio. Achei que aquilo era uma piada, sabe? Foi uma abertura para fazer algo mais sério. Estou me descobrindo mais como artista agora. Eles entenderam meu estilo caseiro de gravar, o senso de humor, a referência musical do sintetizador. Foi muito sinérgico e os esqueletos das músicas se mantiveram. Era um estúdio com mil coisas, mas a gente queria conservar o original. Não gosto de coisas muito produzidas, filtros na voz. Sou bem mínima, gosto do essencial. Quero ser quem eu sou. Em Italove, por exemplo, a única coisa que a gente fez foi diminuir o bpm, simplificar a linha de baixo.

C: E a versão em português do Free Hifi Internet?
E: Gravamos os dois releases juntos e Italove não poderia ser um lado A e B do Free Hi-fi Internet. Muito por isso que fizemos a versão em português. Nos anos 1970, era comum encontrar versões traduzidas de quase tudo, em várias línguas. Foi como uma piada, até porque escrevi essa versão em algumas horas num grupo de WhatsApp com amigas. Precisava de texto e usei muita coisa que apareceu lá.

C: Você carrega humor na sua música…
E: Escrevo muito quando eu não estou bem. É uma forma de terapia. Mas não quero deprimir ninguém, sabe? Nem me afundar mais em tristezas. Talvez por isso que eu escolha o humor. A vida é tragicômica e essa é a forma mais autêntica que eu posso criar, uma reflexão de como sou. No Soundcloud, às vezes subo uma música durante um mês. Demos para download do tipo “Go fuck yourself over there”. Depois de dez downloads, tiro do ar e nunca mais a música aparece.

“A inocência não dura a vida inteira.
Brinque de ser sério.
E leve a sério a brincadeira”
Rita Lee

C: Com essa vida sem apartamento fixo e mudanças pelo mundo, como fica a rotina de trabalho dedicado às composições?
E: Freestyle, não tenho uma metodologia. Sou freak de pesquisar música na internet. Também posso passar uns seis dias diretos no Garage Band: faço um rascunho, começo outro, abro dez projetos, volto depois de um ano em coisas que não terminei, e acaba acontecendo. Tem coisa que termino, não gosto e prefiro esquecer que existiu, rs.

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Print de um projeto que Emmanuelle acabou de começar.

C: E você faz intervenções live no sets?
E: Nas condições possíveis. Não tenho orçamento para carregar uma banda, faço um pequeno live com microfone e voice over. Gosto de discotecar e funciona cantar por cima, mas. Na Selvagem vou levar um microfone.

Dj set com vocais. Em Brixton (Inglaterra), abril 2017 / foto: Babycakes Romero
Dj set com vocais. Em Brixton (Inglaterra), abril 2017 / foto: Babycakes Romero

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Texto e entrevista por João Casotti (Comuna).

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