John Gómez resgatou a música experimental eletrônica no Brasil dos anos 1980

14/06/17
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John Gomez garimpando discos pelo Centro do Rio

Era 2014, no Japão, quando John Gómez entrou na loja de vinil Rubbergard Records, em Tóquio. Kenichi o atendeu, um simpático vendedor de discos. O especialista em música brasileira de olhos puxados apresentou ao colecionador o EP “Brasileira”, gravado por Maria Rita Stumpf em 1987. “Parecia uma coisa de outro mundo”, lembra Gómez, que comprou o disco e seguiu seu instinto: “Em um dia consegui comprar umas 10 cópias. Estava tudo online, disponível”. Começava nesse momento a pesquisa que teve como resultado final a coletânea “Outro Tempo: Electronic and Contemporary Music From Brazil”, lançada em fevereiro deste ano pelo selo holandês Music From Memory.

O trabalho reúne músicas de artistas brasileiros do período entre 1978 e 1992. Uma cena musical que fazia as primeiras experimentações com equipamentos e instrumentos eletrônicos no Brasil. Compositores tão pouco reconhecidos em seu próprio país, que ficaram surpresos com o interesse de um gringo em músicas esquecidas dos anos 1980. “Uma geração perdida”, como descreveu Priscilla Ermel a John Gómez quando ele bateu em sua porta. Corpo de Vento, música da compositora com quase 16 minutos de atmosféricas percussões é uma das 17 licenciadas no vinil que você pode escutar no link abaixo.

No Rio de Janeiro como convidado para tocar na Selvagem do dia 17 de junho, conversamos com John Gómez sobre a sua pesquisa musical, o seu trabalho como DJ e a sinergia musical com Millos Kaiser e Trepanado. A dupla vai inaugurar este ano o próprio selo, Selva Discos, que estreia com o relançamento de “Brasileira”, mesmo álbum que deu início à pesquisa da coletânea Outro Tempo. Trinta anos depois, o raro vinil de Maria Rita Stumpf se tornou uma obra disputada e valorizada por colecionadores de todas as partes do mundo. Gómez admite alguma responsabilidade na difusão desse disco no contexto europeu, depois de emprestar aquelas dez cópias compradas em 2014 a amigos produtores como Hunee, Young Marco e Invisible City, que até hoje tocam tracks do álbum em seus sets pelo mundo.

COLUNA: A descoberta de Maria Rita Stumpf provocou o início do seu trabalho de curadoria do “Outro Tempo: Electronic and Contemporary Music From Brazil”. Como foi o desenvolvimento e as descobertas dessa pesquisa a partir deste momento?

JOHN GÓMEZ: Quando escutei Maria Rita pela primeira vez, em 2014, parecia uma coisa de outro mundo. Texturas sonoras muito próximas do eletrônico, do New Wave. A partir daí comecei a investigar. Primeiro online para saber se existiam mais trabalhos assim, pois nesse momento ainda nem pensava na compilação. Procurei uma cópia da Andréa Daltro por muito tempo, um disco que nem foi publicado oficialmente. Por volta de 1984, ela convocou os amigos e fez uma espécie de crowdfunding na época para produzir os discos. Apenas mil cópias, que depois foram distribuídas como pagamento entre os amigos. Quando enfim encontrei, contei ao Jamie Tiller, do Music From Memory, e propus fazer a compilação. Me chamou a atenção a arte do disco, que na capa tinha escrito “Música instrumental vocalizada”, e no verso “Produção Dependente”. Com Maria Rita e Andréia Daltro já tinha um material muito interessante, mas precisava elaborar mais. E assim fui buscando outros discos, conhecendo os artistas.

COLUNA: A premissa da coletânea foi uma abordagem sobre a experimentação de instrumentos, equipamentos e sonoridades eletrônicas na música brasileira entre 1978 e 1992, período também marca a transição da ditadura para democracia no Brasil. O que descobriu de relação entre esse contexto e a produção musical?

JOHN GÓMEZ: Meu interesse era musical. Sobre a influência das novas tecnologias na produção deste período. Depois, naturalmente fui investigando o contexto. Durante a ditadura não era fácil importar computadores ou equipamentos, uma medida dos militares para proteger a indústria nacional. Muitos artistas me contaram sobre a dificuldade de importar e às vezes da necessidade de pagar propinas para entrar no país com os equipamentos. Era o contexto da globalização, do acesso ao mundo. Havia muito interesse em incluir esses elementos na época, mesmo com um certo preconceito no Brasil em relação às baterias eletrônicas, por ter uma cultura de percussão tão valorizada. Pelo que vi, essas foram as primeiras experimentações e incursões eletrônicas. São artistas pioneiros.

COLUNA: Apesar de não estar presente na compilação como compositor, Egberto Gismonti é uma figura central sobre esta cena. Inclusive, seu selo Carmo Records cedeu direitos de algumas músicas para o Outro Tempo. Você o conheceu?

JOHN GÓMEZ: Sim, conversei com ele. Uma pessoa difícil e bastante profissional. Ele foi um visionário, experimentou muito com equipamentos eletrônicos. Nando Carneiro, que toca com ele atualmente, lembrou de quando o Egberto mandou ele ler um livro sobre programação de computadores. Ele tinha uma abertura, uma visão de como fazer que influenciou muito estes artistas. Tive que persistir muito com ele para liberar as músicas do seu selo.

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Foto presente no álbum de Fernando Falcão, “Memória Das Águas” (1981) / divulgação Outro Tempo

COLUNA: E como foi o processo de liberação das músicas em um país conhecido por sua burocracia?

JOHN GÓMEZ: Primeiro tive que convencer os artistas, que me achavam um louco: “Ninguém liga para essas músicas!”. Depois, veio o licenciamento das músicas, que já é difícil em qualquer lugar do mundo, mas no Brasil é ainda mais. Muitas vezes você não recebe nem o sim, nem o não. Mas fui um cara extremamente chato, persistente. E no final, todos ficaram felizes com o projeto.

COLUNA: Recentemente, no Red Bull Academy Festival São Paulo, você dirigiu uma noite de shows de artistas do Outro Tempo (junto com o músico Kassin), que teve apresentações de Cinema, Marco Bosco, Maria Rita Stumpf, Os Mulheres Negras, Nando Carneiro e Priscilla Ermel. As apresentações ao vivo pode ser um desdobramento do projeto? Como se sente nessa curiosa situação de ser um gringo apresentando artistas brasileiros no Brasil?

JOHN GÓMEZ: Podemos aproveitar esse momento, expandir o interesse sobre essa geração. O Kassin falou comigo um pouco antes do show no festival: “É importante que você fale em inglês para as pessoas entenderem que é de um gringo a responsabilidade desse trabalho”. É difícil explicar, não me vejo como um messias ou um salvador. Mas quando o interesse vem de fora, acaba provocando a curiosidade por artistas que não tiveram o reconhecimento que poderiam ter no próprio país. Assim a música ganha significado novamente. Esse show foi uma oportunidade única. Vou explorar essa possibilidade, mas também é importante fechar um ciclo. Hoje posso ajudar os artistas, e eles também podem fazer outras coisas, outros projetos. Volume 2? Estou pensando em opções, mas o importante é que haja uma evolução e não uma lista dos descartados.

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Priscilla Ermel e suas experimentações sonoras nos 1980
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Priscilla Ermel durante apresentação em junho de 2017 no “Outro Tempo: Brasil Eletrônico Experimental”, realizada no Red Bull Academy Festival São Paulo / © Red Bull Content Pool

COLUNA: Quando colecionar discos deixou de ser um hobby e se tornou uma profissão para você?

JOHN GÓMEZ: Sempre fui interessado em música. Tocava bateria, ouvia jazz. E gostava muito de hiphop, tanto que foi esse o som que me trouxe o pensamento sobre vinil. Não me considero um digger (pesquisador de vinil) como profissão. Tenho muita, muita fome de sons diferentes. Mas não vejo o meu colecionismo como profissão, e sim como interesse. Nos últimos 4 anos comecei a tocar com mais frequência como DJ em Londres, e a demanda de outros países acompanhou esse processo nos últimos dois anos. Tenho doutorado em literatura modernista com música, e no ano passado que parei de dar aulas para ganhar controle sobre o meu próprio trabalho. Tenho muita curiosidade cultural e a música sempre foi a principal, pois ela abre o mundo em portas que antes estavam fechadas.

COLUNA: Quando você faz uma compilação, interpreta um período histórico em uma obra. E quando se apresenta como dj, interpreta um momento específico daquela pista de dança. Como uma linha de trabalho influencia a outra?

JOHN GÓMEZ: Como DJ gosto muito de misturar sem a intenção de educar. Música africana, disco, eletrônica, antilhana, brasileira, de todas as décadas. O importante é que as pessoas dancem. É preciso ser muito sensível aos contextos, pois ambos são processos de seleção nos quais a música tem valor. Histórico e reflexivo no caso de um disco, e mais funcional e voltado para o momento no caso da pista de dança.

COLUNA: O que esperar de John Gomez na pista da Selvagem no Rio?

JOHN GÓMEZ: Não gosto de planejar tanto meus sets. Com a Selvagem em São Paulo toquei muita música zouk e antilhana. Funcionou muito bem, acho que vou mesclar isso com eletrônica. Enfim, um pouco de tudo.

COLUNA: Pode mandar um gostinho de música zouk?

JOHN GÓMEZ:

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Texto e entrevista por João Casotti (Comuna). 

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