Vários chopes com Eric Duncan, Badenov e Rodrigo Peirão

16/08/18

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Eric Duncan foi o primeiro a chegar e pedir naquele português bem mais ou menos “um batata português”. O garçom era conhecido e logo trouxe o pedido com o chope do “DJ”, apelido do Dr. Dunks no Braseiro na Gávea. Alexandre Ostrovsky, mais conhecido como Badenov, chegou de bicicleta em seguida. Logo tirou o casaco, reclamou do suor e se refrescou na tulipa. O atrasado da noite foi Rodrigo Peirão, perdoado porque acaba de virar pai. Chegou com aquele sorriso babão, soltando a história que o Braseiro só tem geladeira de vinhos por causa do Eric. Informação confirmada pelo garçom: “Sim, foi ideia do ‘DJ’”.

Dr. Dunks nunca foi ao Cristo, nem ao Pão de Açúcar e tinha acabado de comprar ingressos para ver o Flamengo no Maracanã pela primeira vez. Mas desde 2005, quando veio ao Rio, repetiu a viagem todos os anos até morar de maneira mais fixa nos últimos três. Foi o “convidado que nunca vai embora” do Hotel Badenov, depois do sofá do Peirão. E juntos abriram a conversa de bar falando brevemente sobre o som da festa de despedida do Eric no Dama de Aço com os três DJs no som, mais no espírito de provocar um ao outro do que combinar qualquer coisa.

“É horrível com o Eric, você nunca sabe o que ele vai tocar” reclamou Badenov, jogando na mesa a primeira memória sobre a night carioca de uma época que celular não tinha câmera nem zap, em 2005: “Sabe aquela disco music animada que você não consegue abaixar os braços? Todo mundo ouviu falar daquela festa com o Eric Duncan no 00”.

Comentário no evento Bye Bye Dr. Dunks.

Em 1986, Eric Duncan começou a discotecar em Los Angeles. Se interessou primeiro por hip-hop, depois soul, electro até os beats da cena de Detroit. Em Nova Iorque começou a ganhar dinheiro como DJ e ganhou alcance global com o Rub N Tug, seu duo com Thomas Bullock. Dunks tem mais de uma centena de releases e remixes lançados por selos do mundo como DFA (EUA), C.O.M.B.i (Japão) fora as diversas transmissões com Tim Sweeney pelo aclamado Beats In Space. É daqueles artistas sem barreiras musicais. Capaz de fazer uma pista decolar com house/disco, voar concentrada no techno e pousar em músicas imprevisíveis. “Porra, fechou a Disco Not Disco com ‘Riders on The Storm’, do The Doors. Ninguém entendeu nada”, relembra Peirão.

O back to back com Gustavo MM seria uma surpresa para a festa de despedida carioca do Eric. Como a agenda do MM não estava livre, Badenov podia contar o convite que fez ao produtor que trouxe Eric pela primeira vez ao Rio, na tal noite épica no 00 chamada Playground. Ele lembrou com carinho o período em que começava a levar mais a sério a profissão de DJ: “Comecei tocando com iPod no Dama de Ferro. Foi o Gustavo MM quem me transformou em DJ”.

Depois da estreia na noite carioca “ficou fácil bookar o Dunks”. Tanto pelo gringo que se amarrou no rolê e cavava sempre uma vaga no calendário para voltar, quanto pelo público de seguidores do DJ na esperança de mais um disco ecstasy. Já cascudo no CDJ, Badenov também o convidou para suas festas que representaram muito bem a cena eletrônica do Rio por anos, casos da Combo (entre 2007 e 2009) e Moo, que recebeu o Eric três vezes e até hoje mantém sua importante movimentação na cultura noturna da cidade. Peirão, que até então só era visto na grade da pista dançando com exagero, foi para o lado da cabine como compositor e produtor. Mais tarde trouxe o amigo para sua festa, a Disco Not Disco.

Nesse vai e vem da vida, Duncan viu a cena florecer. Conheceu Millos Kaiser e Trepanado: “A primeira Selvagem que toquei foi em um strip club, insano”. E Peirão o apresentou a Gui Scott, da Gop Tun, e Carrot Green, cujo estúdio fica a 27 passos do Braseiro. Ambos também convidaram o norte-americano para o line-up de suas festas. Além de usar o espaço do cenoura para deixar seus equipamentos como synths e beat machines enquanto rodava o mundo, Dunks frequentava o espaço e também produzia tracks com Carrot que apesar de escutadas em pistas, algumas bombas dessas sessões nunca foram lançadas. Já o remix de “Nervous Inn”, música do Balako (projeto do Peirão com Diogo Strausz), tá no ar e marca uma homenagem do “convidado que nunca foi embora”. Um edit com referência aos tempos nervosos em que morou no Inn Sofá do parceiro.

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Carrot Green, Rodrigo Peirão, Dimitri, Eric Duncan e Gui Scot em 2013.

Muitos chopes depois, histórias sobre os clubs do Rio dominaram a mesa. Do lendário Dama de Ferro*, ao 69, que “foi um lugar perfeito”, segundo Eric Duncan. “Tinha o tamanho, o público interessado, a iluminação, o timing para a construção de uma cena. Era um lugar sobre música acima de tudo”. Peirão complementou com um suspiro de “que época!”, e Badenov não deixou a escapar a importância da 00 e da Fosfobox, que ainda mantém viva a night eletrônica em Copacabana.

*NR: o local da festa de despedida do Eric Duncan se chama Dama de Aço. Apesar do nome, o espaço nada tem a ver com o Dama de Ferro, empreendimento de Adriana Lima. 

Por anos vivendo como um cidadão do mundo, Dunks decidiu em 2015 colocar toda a sua vida material em um depósito de NYC, inclusive a coleção com mais de 6 mil vinis. Apesar do glamour, lifestyle de DJ com fama tem seus desafios. “Sets de 10, 11 horas. E antigamente era só discos. Começava às 22h, quando me dava conta já eram 10h. Enfim, tinha semanas que eu tocava seis noites em diferentes lugares”, conta Eric. Manter o corpo ligado por dez horas na noite com regularidade não é tarefa fácil. Assim a cultura noturna te apresenta alternativas sedutoras como a cocaína, companheira que Eric abandou há quase um ano. “O ritmo era intenso”. Ele revela um momento mais calmo de sua vida e faz questão de chutar qualquer tabu sobre o assunto: “Pode escrever sobre isso se quiser, nenhum problema”.

Depois de três anos morando no Brasil, Eric está de mudança para Bali com sua namorada Marcela Petrus. Ela chegou animada no final do chope: “Vou levar ele no Maracanã amanhã”.

Bye Bye Dr. Dunks

Sexta, 17 de agosto de 2018, tem Bye Bye Dr. Dunks. Não é adeus. É bye bye. Claro que o Eric volta daqui a um ano. Dois no máximo. Só não dava pra deixar passar a oportunidade. Como produtor e amante da night, sou testemunha de alguns desses raros momentos em que o tempo para na pista de dança. Narrativas impecáveis. Uma delas foi com o Eric no último set do Festival Mareh em 2016, nas praias de Boipeba. E aí a gente bota pilha na Comuna pra agitar essa… Vai que o tempo para de novo? Se já valeu pelo chope, vai valer a festa.

Esse foi o único registro da noite. Foi mal pela foto, foram várias cervas.

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Peirão, Eric e Badenov depois de vários chopes. E o Neymar se jogando ali no canto superior direito da foto.

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Comuna Festa

Texto por João Casotti (Comuna).

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